HP News | Hipnose Prática
1.02K subscribers
749 photos
72 videos
27 files
1.24K links
Canal de novidades sobre Hipnose.
Criado e mantido por @SamejSpenser.
Ouça o @HPnewsPodcast:
https://linktr.ee/samej
Download Telegram
Forwarded from Luciano Pires
#podcast O debate aí no vídeo começa torto porque nasce de um erro conceitual. E erro conceitual é como discutir trânsito achando que volante é o mesmo que motor. A conversa até anda, mas não chega a lugar nenhum.

A pergunta era provocativa: se um podcast for para a televisão, ele vira um programa de TV e deixa de ser podcast? A discussão foi longa, apaixonada, cheia de opiniões fortes. Só faltou combinar o significado das palavras. Eles estavam chamando de podcast uma coisa que não é podcast.

Esses vídeos no YouTube, com duas, três, seis pessoas sentadas conversando em volta de uma mesa, o tal do mesacast, nunca foram podcast. São programas de vídeo no YouTube. Ponto. Não viraram outra coisa depois. Sempre foram isso. A confusão começa quando se tenta definir podcast como formato. Não é.

Podcast é um sistema de distribuição. Ele nasce no começo dos anos 2000 como um processo técnico: alguém publica um conteúdo num servidor, esse conteúdo é empacotado num feed RSS, e quem assina recebe automaticamente esse conteúdo no seu tocador. Não importa se é áudio, vídeo, texto ou PDF. Importa o processo. É push, não pull. O conteúdo vai até você. Você não precisa ir atrás dele.

Por isso, tecnicamente, dá para ter podcast de áudio, de vídeo, de texto, de planilha Excel se alguém quiser. Parece estranho hoje porque o mercado sequestrou a palavra e amarrou tudo ao áudio falado. Mas a origem é essa. Podcast não é estética, não é cenário, não é câmera ligada. É distribuição.

O problema começa quando alguém pega um programa de vídeo, publica no YouTube, nunca passou por um feed, nunca foi assinado por ninguém em agregador algum, e chama isso de podcast. Aí vem a pergunta errada: se eu colocar isso na TV, deixa de ser podcast? Ora, nunca foi. Não virou outra coisa. Continua sendo um programa de vídeo, só que exibido em outra tela.

O ponto de inflexão histórico está lá atrás, quando o Joe Rogan passa a filmar as gravações de áudio e publicar no YouTube. Aquilo era um podcast que ganhou uma camada de vídeo. Mas o mercado não fez essa distinção. O termo “podcast” virou sinônimo de “gente conversando com microfone”. E pronto. O conceito original foi para o ralo.

Hoje, nos Estados Unidos, muita gente já percebeu o problema. Por isso a mudança de nomenclatura. Não é mais podcast. É show. The Joe Rogan Experience é um show. The Daily é um show. Porque podcast, como palavra, perdeu precisão. Virou rótulo genérico.

E aí chegamos ao ponto desconfortável: discutir se podcast vira TV quando vai para a televisão é discutir o sexo dos anjos. A premissa está errada. O nome está errado. A conversa nasce condenada.

Só que tentar explicar isso é quase inútil. Dá trabalho. Exige voltar à origem, falar de RSS, de assinatura, de distribuição. Num mundo treinado para atalhos, ninguém quer ouvir isso. É mais fácil repetir o erro, seguir o fluxo, chamar tudo de podcast e fingir que está tudo bem.

Não está.

Mas entender isso não é só preciosismo técnico. É critério. É saber onde você está jogando o jogo. Quem confunde formato com processo acaba tomando decisão errada, medindo coisa errada, brigando por território que não existe.

Podcast não virou TV e TV não virou podcast. O que virou foi a palavra, esvaziada, esticada, deformada para caber em qualquer coisa.

E quando o vocabulário perde precisão, o pensamento vai junto.